DUNNO

// EU ACREDITO, AMIGOS, QUE CARAVANAS DE FOGUETES
NOS LEVARÃO DE ESTRELA EM ESTRELA //


Minha primeira crítica

// DATA: 25/05/2025 18:17 //

O desenvolvimento do capitalismo é um processo histórico em andamento que remonta às cidades-estado italianas, onde o comércio com o Oriente Próximo trouxe e concentrou riqueza nas mãos de uma classe social nascente: a burguesia. Com as Grandes Navegações, o centro do comércio europeu se move para os Países Baixos, onde surgem inovações capitalistas, como a venda de ações da Companhia Holandesa das Índias Orientais, reforçando o laço umbilical entre o colonialismo e o capitalismo.

A expansão da lógica da mercadoria atinge novos patamares na Inglaterra. Mudanças na legislação vão desconstruindo o feudalismo, parte a parte. Violentos conflitos entre a burguesia e a nobreza aristocrática acontecem em toda a Europa. A Revolução Francesa e a Independência dos EUA marcam o surgimento do liberalismo como ideologia dominante.

O que o liberalismo nos prometeu? Igualdade, liberdade e fraternidade. Mas foi isso que ele nos entregou? Bem, não. A expansão violenta do capitalismo mostra o que realmente foi entregue: imperialismo, dominação e ódio. A Europa se colocou como centro do mundo, os europeus como superiores, e usou isso para escravizar e dominar outros povos. O exemplo claro é a construção dos EUA, baseada na limpeza étnica e no genocídio dos povos originários, e a ocupação violenta de suas terras. Hitler elogiaria esse processo de construção dos EUA; para ele, o Volga seria o seu Mississippi.

Ora, passei esse tempo todo falando sobre o processo histórico do surgimento e expansão do capitalismo. Mas só por isso não podemos concluir que seja o comunismo, ou que possa ser uma alternativa superior ao capitalismo. O desenvolvimento do comunismo também tem seu processo histórico, e descrever, sem muitos detalhes, os horrores do capitalismo não chega a demonstrar a necessidade do socialismo.

Primeiramente, o que seria o tal comunismo aqui mencionado? O comunismo é o movimento político derivado do pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels, mais notadamente seu método: o materialismo histórico. Tal método é a análise das condições materiais de uma sociedade, dentro de seu desenvolvimento histórico, para entender suas contradições e conflitos. Diferente do socialismo utópico, o comunismo é a análise científica da realidade e a busca de entender e superar suas contradições. Portanto, o comunismo é um movimento real, não um conjunto de ideais e checklists.

Para uma análise do Brasil, primeiramente precisamos pensar sobre a formação do Brasil como país. As terras que hoje são ocupadas pelo Brasil possuem uma rica história, mas, falando da formação do Brasil, começamos com a invasão e colonização portuguesa. O Império Português ocupa o Brasil em busca de seus ricos recursos naturais e utiliza suas terras, produzindo mercadorias para a Europa. A mão de obra foi composta de escravizados africanos, traficados para cá. Durante o processo de independência, mantivemos os mesmos latifundiários e escravizados; até o monarca de Portugal por aqui ficou. Outro passo para a formação do Brasil foi a abolição da escravatura, feita tardiamente e sem nenhuma preocupação com os ex-escravizados. O Império não suportou a pressão dos latifundiários, e o exército, pela primeira vez, dá um golpe de Estado e instaura a república.

A República Brasileira mantém no poder a mesma elite agrária, enquanto herda do Império uma política de embranquecimento da população, feita pelo estímulo à imigração europeia. Tal população imigrante foi usada como mão de obra nas mesmas fazendas e na indústria nascente. Dos descendentes dos escravizados e dos novos imigrantes surge a classe trabalhadora brasileira, e do latifundiário, surge a burguesia brasileira. Em resumo, a formação das classes sociais no Brasil foi um processo histórico de exploração, violência e concentração de riqueza. E note: dentro desta descrição, em nenhuma parte fica implícita alguma quebra com o sistema de colonização e a relação de dependência com a metrópole, embora a figura da metrópole tenha mudado durante o desenvolvimento do Brasil.

O Brasil é um país de capitalismo dependente, subordinado aos interesses dos países do centro do capitalismo. Tais países extraem a riqueza produzida no Brasil, para uma pequena elite, enquanto nós vivemos em uma situação de submissão ao interesse estrangeiro. Essa dependência e submissão são o que caracterizam o Brasil na partilha do trabalho internacional. A burguesia interna brasileira é sócia minoritária e tem interesse na manutenção do status quo.

Portanto, se o desenvolvimento e a criação de um Brasil soberano – que dispute a fronteira do conhecimento científico, que seja um país com uma população rica e educada, uma indústria nacional avançada e uma agricultura moderna – não são um projeto da burguesia brasileira, então deve ser o projeto da classe trabalhadora. Devemos construir um Brasil para nós, e o primeiro passo é reconhecer tal necessidade. Reconhecer que a manutenção da burguesia brasileira não nos levará adiante e que é necessária uma quebra revolucionária, sob o comando da classe trabalhadora, para a construção do Brasil como país, e não como colônia.

Ora, então o projeto comunista é pegar todos os trabalhadores e marchar para Brasília? Não, não é bem assim. A organização da classe trabalhadora, na forma de um partido de massas, é um processo lento, complicado e doloroso; no entanto, é uma necessidade. Tal partido deve buscar disputar a hegemonia na sociedade e apresentar um projeto de país. E vencendo a disputa nacional, apenas começaremos a construção do Brasil. Isso ainda é um sonho distante, mas espero ter convencido você da necessidade de desenvolvermos esse processo.